Café e Cacoal: História iniciada há 50 anos que volta a ser reescrita

Devido a grande produção do grão entre os anos de 1980 e 1990, Cacoal passou a ser conhecida como a ‘Capital do Café’, título que ostentou até o início dos anos 2000, quando por uma série de problemas, que vão desde o aparecimento de novas culturas, falta de incentivo por parte do setor público, comercial e industrial e os baixos preços, a plantação foi reduzida e o município deixou de ser o maior produtor de Café Conilon.

Entretanto, após um esforço conjunto de várias frentes, Cacoal voltou a ganhar destaque não pela quantidade, mas pela qualidade, fator que tem rendido prêmios no cenário estadual e nacional para os produtores que acreditaram nessa nova fase do grão e compraram a ideia.

O café robusta, como é conhecido o grão produzido e preparado em Cacoal, também tem agradado o paladar de pessoas do outro lado do planeta. A Coréia do Sul é um dos destinos para onde deve ser exportado por uma empresa local a partir do primeiro semestre de 2018.

Começo de tudo

A história do café em Cacoal começou a ser inscrita no final da década de 1960, quando as primeiras sementes chegaram ao município. Aos 84 anos, André Moreira Nunes relembra os caminhos que ele e o pai, Clodoaldo Nunes de Almeida, percorreram para introduzir o café na cultura agrícola do município, dando início a segunda fase de colonização da região e mudando o rumo da economia local, que era até então era baseada no extrativismo de produtos nativos como cacau, castanha- do- pará e látex.

“Em 1955 deu uma geada muito forte e queimou toda nossa lavoura de café que tocávamos no Paraná, então meu pai disse: ‘se um dia a gente conseguir uma terra que não ocorra geada vamos mexer com café novamente’. Anos depois, meu pai recebeu uma proposta para encontrar mil quilos de castanha-do-pará que seriam usadas em um teste de óleo. O gerente disse que dava todos os recursos para que o produto fosse encontrado em qual lugar do Brasil. Meu pai aceitou a proposta e quando chegamos a um hotel em Cuiabá (MT), o dono do local nos disse que Rondônia era a região de grande produção. No dia 5 de fevereiro de 1965, chegamos às margens do seringal Castanhal, que ficava entre as vilas de Pimenta Bueno (RO) e Cacoal (RO), onde encontramos o produto que procurávamos”, conta.

Apaixonado pela nova terra, após descobrir que tudo que plantava colhia-se em abundância, sem ser castigado pela geada, Clodoaldo Nunes juntou recursos e comprou o seringal, local que foi berço das primeiras plantações de café na região.

“Depois de comprar o seringal, ele meu pediu para eu voltar à Mato Grosso e buscar nossa mudança. Também me orientou a trazer junto com as coisas um saco de semente de café para plantio na nova terra. Assim o fiz e, em 1967 realizamos o plantio de 18 mil pés no seringal. Dois anos depois era colhida a primeira safra de café em Cacoal”, recorda.

Recomeço

Cinquenta anos depois que as primeiras sementes foram plantadas no município, o café volta a ser destaque na região, com a missão de superar as perdas provocadas pelo abandono da cultura no começo dos anos 2000. De acordo com o presidente da Câmara Setorial do Café, Ezequias Braz da Silva Neto, uma série de fatores fez com que Cacoal perdesse o título de ‘Capital de Café’, conquistado entre os anos de 1980 e 1990.

“Houve um desânimo dos produtores quando o preço caiu, e eles foram mexer com gado, que dá menos trabalho que o café. Na época, o governo não incentivou e quando acordamos, o município estava com uma produção muito baixa. Mas em 2013, toda a cadeia produtiva se uniu, com a participação do governo do estado, indústria, produtores e outros órgãos, e deu início à revitalização da cultura. A resposta desse esforço foi positiva, tanto que hoje a produção de Cacoal é de 150 mil sacas por ano, metade que era colhido no ‘auge’ da cultura”, revela.

Além da produção, segundo Ezequias, a maior preocupação do setor é com a qualidade, pois a Zona da Mata é responsável por 70 % da produção do estado, com destaque para Nova Brasilândia D’Oeste (RO). Cacoal segue na terceira posição, mas toda a produção passa pela cidade para a comercialização e cotação do grão.

“Graças a essa união do setor produtivo estamos reconquistando nosso espaço na produção e principalmente em qualidade, tanto que os primeiros colocados em concursos de melhor café robusta em Rondônia e no Brasil são de Cacoal. Os produtores têm nos surpreendido com trabalho sério e a nossa expectativa é que o estado produza 2 milhões de sacas em 2018 e 4 milhões em 2020, com grande parte dos grãos sendo produzidos na nossa região”, revela.

Reconhecimento

André Kalki, de 27 anos, trabalha com café desde criança, é um dos produtores que decidiram investir na qualidade de produto e agora colhe os bons frutos do trabalho. André cultiva pouco mais de 5 alqueires de café conilon robusta em uma propriedade na Estrada da Figueira, na divisa de Cacoal com Espigão D’Oeste (RO).

Este ano, a amostra do café produzido por ele alcançou o 3º lugar no Concurso de ‘Qualidade e Sustentabilidade do Café Canéfora’ realizado em agosto em Cacoal e no concurso ‘Coffee of the Year’ (Café do Ano do Brasil), promovido durante a Semana Internacional do Café (SIC), em Belo Horizonte (MG).

“Hoje não precisa mais plantar um mundo de lavoura em busca de lucro. Para se obter bons resultados é preciso ter um produto de boa genética, investir em tecnologias que substituam os agrotóxicos, se dedicar em cuidar dos detalhes e naturalmente os resultados vão aparecer. No caso de Rondônia, o diferencial é que os custos de produção são baixos”, explica.

Empreendedorismo

Depois de se dedicar algum tempo em conhecer o mercado internacional do grão, passando uma temporada na Europa, se especializando na área, o empresário Lucas Borghi, de Cacoal, que é de uma familia que trabalha com a compra, venda e beneficiamento de café há mais de 30 anos, abriu em janeiro deste ano a propria indústria de benefeciamento e distribuição de café.

“O nosso produto é todo de Cacoal, com os grãos colhidos na região, beneficiados, torrados e embalados no município”, revela.

Além de Cacoal, segundo o empresário, o produto é comercializado em mais 30 cidades de Rondônia, parte do Amazonas, Paraná e São Paulo. “Aos poucos vamos ganhando mercado no Brasil”, aponta o empreendedor que decidiu levar o sonho em forma de produto para o outro lado do planeta.

“Recentemete, em razão dos contatos que consegui durante minhas especializações, fui à Coreia do Sul, onde apresentei o nosso produto e também conheci um pouco da cultura deles. Descobri que os coreanos tomam bastante café, porém, são muito práticos e perferem os produtos que são entregues já prontos”, aponta.

Durante a visita, de acordo com Lucas, algumas parcerias foram fechadas entre os dois lados. “Eles gostaram muito de nosso café, com isso, fechamos alguns contratos de exportação que devem serem concretizados no primeiro semestre de 2018. Também estamos em negociações com representantes comerciais do Egito e Líbano. Só os coreanos mostraram intenção de importar até 300 mil sacas por ano. Quando concretizado, penso que será uma grande vitória para o setor cafeeiro de Rondônia”, aponta.

Fonte: G1