Coveiros de Cacoal, RO, falam sobre preconceito, curiosidades e rotina da profissão

Otácilio José dos Santos, de 64 anos, e Luiz Carlos Prates, de 54 anos, são os responsáveis pelas covas do cemitério da Saudade, localizado na Linha 6 em Cacoal (RO), município a 480 quilômetros de Porto Velho. Os trabalhadores contam que apesar de ainda haverem preconceitos por parte das pessoas em relação a profissão de coveiro, o ofício é visto por eles de forma natural e o local de trabalho transmite paz de espírito. No Dia do Trabalhador (1º), os coveiros pedem valorização e mais dignidade aos familiares.

Otácilio é coveiro há 26 anos. Desse tempo, além de exercer a profissão, ainda morou por 15 anos em uma casa construída dentro do cemitério, isso porque como o lugar era bastante afastado da cidade, o coveiro também cumpria a função de vigia.

“Quando eu fiz o concurso público não existia o cargo de coveiro, então eu fui contratado como braçal, mas alguém precisava abrir as covas para enterrar os corpos. Eu vim para esse trabalho para fazer um teste e estou até hoje”, contou Otácilio.

Já Luiz fez um concurso público para o cargo de coveiro. Ele conta que tinha como concorrentes 39 pessoas. Na profissão há cinco anos, Luiz afirma que a escolha foi por falta de opção, já que preocupado com a idade, precisava garantir um emprego estável.

“Eu ainda percebo um pouco de preconceito nas pessoas quando eu falo minha profissão. Então para evitar que fiquem com medo de mim, ou até evitarem de pegar na minha mão, quando me perguntam a minha profissão, falo que sou funcionário público”, diz sorrindo.

Otácilio diz que nunca teve medo da profissão que exerce, já Luiz afirma que até se acostumar se sentia um pouco receoso, principalmente quando chegava no cemitério pela manhã, mas ambos são enfáticos em dizer que: “Temos que ter medo dos vivos, os mortos já se foram e não nos fazem nenhum mal. São os vivos que vem até o cemitério para usar drogas e furtar nossos equipamentos, fazer trabalhos malignos e tantas outras coisas”, reclamaram.

Antes de ser coveiro, Luiz já trabalhou em várias outras funções. Mas é nessa profissão que se realizou e afirma que ficará até se aposentar.

“Já passei por vários trabalhos e em nenhum senti a paz de espírito que sinto no cemitério. Sou católico e sempre que acompanho os enterros peço a Deus pelas almas e familiares. Tem situações que a gente acaba se comovendo junto a família. Eu sinto mais quando o enterro é de criança”, lembrou Luiz.

Dificuldades

Com vários anos de experiência, Otácilio comemora que as covas já não são feitas na enxada, realidade que precisou enfrentar por muitos anos. Atualmente as covas são abertas por uma máquina e o coveiro tem o trabalho de adequar o buraco para receber a urna.

“Nós tínhamos que cavar todo o buraco com enxada. Eu lembro que era bem trabalhoso. No tempo da seca era preciso mais de um dia de trabalho, pois tínhamos que molhar a terra e depois cavar, esse processo era repetido até três vezes até que o buraco ficasse do tamanho adequado. Agora está bem mais fácil”

Curiosidades da profissão

Ao longo da profissão, os coveiros já presenciaram várias coisas curiosas. Luiz conta que sempre ao assumir o plantão pela manhã, é preciso dar uma checada nos túmulos, para se certificar que nenhum tenha sido violado, já que o cemitério é aberto e não há vigias.

“Já aconteceu de enterrarmos pessoas envolvidas em crime e no dia seguinte ter bilhetes sobre o túmulo dizendo: ‘já foi tarde, eu que queria ter te matado’. Também tivemos o caso de um homem que todos os dias molhava o túmulo da mãe, para que ela se mantivesse fresca, e um outro que tentou desenterrar a mãe na Sexta-feira Santa para que ressuscitasse no Domingo de Páscoa”, contou.

Valorização e dignidade

Com o Dia do Trabalhador, os coveiros de Cacoal afirmam que gostariam de ser um pouco mais valorizados financeiramente e com equipamentos de segurança, mas garante que o que mais faria a diferença seria ver os familiares dos mortos terem tratamento digno em todos os cemitérios.

“Seria muito bom que em todos os cemitérios os familiares que fossem enterrar seus entes queridos, tivessem um local com abrigo do sol ou chuva para ficarem, além de acessibilidade para os idosos e cadeirantes”, pediu Luiz.

Fonte: G1