Ribeirinhos cobram respostas um ano após morte de peixes no rio Araguari

peixesA segunda grande aparição de peixes mortos na orla do município de Ferreira Gomes, a 137 quilômetros de Macapá, completa um ano neste domingo (13), e ainda é sentida por pescadores e ribeirinhos. Desde a data, as famílias buscam reparação para os danos, que, segundo eles, são econômicos, sociais e principalmente ambientais.

A empresa Ferreira Gomes Energia, que construiu e opera uma hidrelétrica na cidade desde 2014, é apontada pelos pescadores como a causadora do desastre ambiental. O aparecimento de peixes mortos a partir de 13 de novembro de 2015, foi sempre atribuído pelos ribeirinhos a manobras irregulares supostamente feitas pela hidrelétrica, que sempre negou culpa pela mortandade.

“Todos esses ribeirinhos e pescadores foram atingidos e não houve nenhuma compensação. Não foi só a situação dos peixes, foi a promessa de desenvolvimento para a região. Hoje está um caos esse município, famílias desestruturadas, não houve uma qualidade de vida”, lamenta Moroni Guimarães, representante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

Antes dos registros na orla de Ferreira Gomes, que tem grande potencial turístico, outras mortes de peixes aconteceram desde 2014, ao longo do rio Araguari, principalmente no trecho utilizado por três hidrelétricas, onde, além da Ferreira Gomes Energia, atuam a Usina Coaracy Nunes e a Cachoeira Caldeirão – as duas últimas na região rural do município.

As investigações dos casos são feitas pelo Instituto de Mapeamento e Ordenamento Territorial (Imap) e pela Delegacia de Meio Ambiente (Dema). Em fevereiro de 2016, o Imap divulgou um laudo apontando que a causa das mortes dos peixes seria por embolia, provocada por alterações gasosas na água próximo ao vertedouro da hidrelétrica.

O Imap constatou que os peixes recolhidos próximo a hidrelétrica apresentavam alterações físicas, a exemplo de bolhas embaixo da pele e olhos sobressaltados, características de indícios de embolia gasosa devido a supersaturação da água liberada pelo vertedouro, mecanismo usado para controlar a vazante do excesso que chega ao reservatório durante o período de chuvas.

A Ferreira Gomes Energia disse no início do ano que a causa das mortes seria o período de reprodução dos peixes – conhecido como piracema -, onde as espécies sobem o rio e se concentram próximo a barragem.

“As primeiras análises sugerem que esta ocorrência específica pode ter relação com o início do período de piracema que, além da baixa vazão do rio, compreende a subida de uma grande quantidade de peixes até as proximidades da usina”, disse, em nota, a empresa na época.

O representante dos atingidos lamenta que os prejuízos com a mortandade têm mudado hábitos de famílias, que viviam exclusivamente da pesca. Ele reforça que os prejuízos ambientais atingem comunidades ao longo do rio Araguari, prejudicando a economia em comunidades rurais de Tartarugalzinho, Porto Grande, Cutias e Amapá.

“Uma cultura do município todo final de tarde é pegar o seu alimento no rio. Tudo o que a empresa fez até hoje foi em função das cobranças do MP [Ministério Público Estadual], mas parte das condicionantes não foi cumprida”, completa Moroni.

Para lamentar um ano da data, o movimento pretende organizar uma caminhada durante a manhã que vai seguir da orla de Ferreira Gomes até a ponte sobre o rio Araguari, construída ao lado da hidrelétrica. Ao final, será rezada uma missa.

peixes1Fonte: G1